segunda-feira, 24 de junho de 2013

Para o Alan, de coração aberto



   O Tijolaço recebeu um comentário que julgo importante reproduzir e comentar.
Veio do Alan, que por tudo parece uma pessoa respeitável e bem intencionada, como são muitos dos manifestantes que enchem as ruas.
Vamos lê-lo, sem cortes, e procurar dialogar. Eis o que ele diz:

   Me parece um típico texto de um militante petista q n quer ouvir e enxergar as verdades q está a situação atual do país. A maioria do povo q está nas ruas como eu não aceita q partidos entrem com suas bandeiras por serem oportunistas querendo se aproveitar da situação, a grande verdade é q partido q faz OPOSIÇÃO séria e forte n existe faz tempo e como o ministro Joaquim Barbosa (e futuro proximo presidente qeu acho q sera eleito pelo povo das ruas) disse, os partidos de hoje são partidos de mentirinha. A grande maioria ja teve sua chance e de uns 20 anos pra cá (8 de FHC-PSDB e + 12 de PT-Lula e Dilma) o Brasil nao evolui em nd, continua corrupção e a lei so funciona pros pobres. Eu como a maioria n defendemos a ditadura, anarquia nem fascismo, longe disso, a questão é q o povo de hj n se sente mais REPRESENTADO em sua síntese por esses partidos de “mentirinha”, a democracia deve continuar o q tem q mudar URGENTEMENTE é uma REFORMA POLÍTICA e PARTIDÁRIA e se for o caso vejo a necessidade de surgir novos partidos com os líderes dos movimentos das ruas como por exemplo a maioria é de estudantes.
OBS: n sou militante de nenhum partido, sempre votei no menos pior ou nulo.

Alan, meu caro, a primeira coisa: não sou um militante petista e quero ouvir e enxergar.
A situação atual do país é muito ruim, mas, acredite, já foi muito pior.
Não sei se você sabe, mas ser um jovem inconformado como você, como eu fui,  já foi algo que condenava um cidadão à perseguição, à prisão, à tortura e à morte.
Os “cegos” como eu deram a juventude para lutar contra isso.
É por isso que prezamos a democracia, mesmo pensando como você, que ela pode ser o regime de gente horrenda no poder, mas que nos permite dizer “não” sem temer por nossa liberdade e até por nossa vida.
Sabe, Alan, no tempo em que eu tinha a sua idade,  a gente brincava: “O que você acha? Eu não acho nada, porque o último que achou ainda não acharam ele…”
Mas, cara, eu não vou ficar dando uma de velho sabido para você.
Você está coberto de razão em dizer que os políticos se dissociaram do povo.
É verdade, mas quem os elegeu não foi esse povo?
A democracia é o regime dos eleitos ou dos que deveríamos ter eleito?
Essa é uma regra do jogo que, se não for respeitada, hoje pode nos servir, mas amanhã servirá contra nós.
Você se diz eleitor de Joaquim Barbosa, embora ele, ao menos confessadamente, não seja candidato.
Mas qual é a legitimidade dele para ser candidato?
Ele se submeteu, alguma vez, ao voto popular ou foi alguém indicado pelos “políticos” para estar onde está?
A quem ele deve “estar lá”, senão a Lula, que indicou um negro e filho de pobres para Ministro do Supremo?
Eu também tenho nojo da influência do poder econômico nas eleições.
Mas você sabia que este governo propôs o financiamento público das campanhas e todos – inclusive a turma do movimento do qual você participa, o recusaram?
Vai dar dinheiro público aos candidatos, dizem eles, como se o dinheiro dado pelos “contribuintes” de suas campanhas viesse do bolso e do uísque desta galera e não da corrupção, não é?
Você tem razão ao dizer que não se sente representado. Eu também não me sinto.
Mas eu posso sentir coisas sem achar que elas devem ser como eu as faria.
Afinal, eu não sou eleito, mas eleitor. E, confesso, dificilmente seria eleito.
Sabe o porquê, Alan? Eu sou muito direto, muito desbocado, muito sincero. E duro.
Eu não sou “sabidão” nem tenho resposta para tudo, talvez como você.
Nossa única diferença, talvez, é que não tenho raiva da pessoas, mas apenas das ações das pessoas.
Olhe para nós dois, Alan, e veja se o Brasil não evoluiu em nada, como você diz.
Eu vim de um país onde pobre era burro, negro era inferior, mulher não tinha direitos, divórcio era proibido, gay era doente mental e esperteza era virtude.
Estamos aqui, diante da humanidade, discutindo nossas razões e sentimentos.
Só podermos fazer isso é uma mudança imensa.
Você não sabe, talvez, o que foi derrubarmos o poder dos oito anos de PSDB, onde o país se arruinava e a mídia comemorava, dizendo que estávamos “fazendo o dever de casa” do sistema de dominação colonial.
Eu peço que você leia o que escrevi sobre o nosso “abismo” geracional, aqui.
Tudo o que eu defendo é o podermos falar, diretamente.
Sabe, Alan, a corrupção e a “lei só pra pobre” são uma merda, mas já foram bem piores neste país.
Mas será que os movimentos dos quais vocês participam estão sendo duros e intransigentes com o vandalismo e os arruaceiros que se intrometem neles ou os desculpam à medida em que servem aos seus propósitos, cuja legitimidade eu não discuto aqui?
Ah, mas vocês não têm nada com isto, não é?
Alan, acredite, o inconformismo não nasceu com você, nem comigo.
Quando a gente acha que nasceu conosco, despreza as lições da história e não consegue pensar pela nossa própria cabeça.
E, aí, se não somos donos dela, alguém é.
O pensamento alienado é isso, o que pertence a outro, não a nós mesmos.

Por: Fernando Brito

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